12 de abril de 2014


Beijinho no ombro
Em referência aos estudos de filosofia que se passam em Brasília.

Diante dos fatos, vamos pensar alguns detalhes:
1.       Funk Beijinho no ombro
2.       Recalque
3.       Pensadores
4.       Educação
 
Beijo da Morte, de um cemitério em Barcelona
Funk Beijinho no ombro: existem muitos funkeiros ligados nas questões sociais (vide Rede Funk Social, vide Mc Garden, vide trabalhos de Juarez Dayrell). Não parece ser o caso dessa moça. Seu clip deixa claro a vida de princesa que ela pretende, isto é, sonha com a mais alta burguesia possível neste mundo. Além do mais, há no clip da música em questão algo da ordem monástica, em que seus acólitos, como tais, devem ficar sempre em silenciosa obediência. Popozuda diz até que acredita em Deus e faz dele seu escudo. Está mais pra componente do rebanho de São Pedro. Resumindo, as imagens veiculadas representam antes de tudo uma ofensa para quem pensa. A letra afirma comportamentos e atitudes mais típicos de uma adolescência hipererotizada e sedenta de prazeres. Ante seus possíveis fracassos ou brigas entre competidores, sobra recalque.
Recalque: Termo utilizado por Sigmund Freud, primeiramente em seus trabalhos relacionados com as psiconeuroses de defesa, no final do século XIX.  Em mais de uma ocasião Freud o referiu como a parte mais essencial da psicanálise (maiores detalhes, vide o artigo de mesmo nome, de 1915). Apresenta o modo de defesa sobre os representantes da pulsão, algo que fica a parte dos registros de consciência aceitáveis pelo “eu”. Em linhas gerais, é uma forma que nós mesmos inventamos para repelir representações desagradáveis. Nesta linha de entendimento, vivemos mesmo em uma sociedade recalcada. Freud, contudo, já havia alertado para os perigos iminentes, pois tudo que é recalcado retorna ao plano consciente de maneiras mais dolorosas (seu estudo é uma proposição necessária, muito difícil por sinal). “Keep calm e deixa de recalque”; “Beijinho no ombro pro recalque passar longe”, significa que há alguém entrando em “crise” [tipo rodando a baiana (que por sinal não têm nada a ver com isso, as baianas...)], fazendo um chilique por motivos bisonhos, por copiosa inveja. A ação defensiva consiste em “tiro, porrada e bomba”, ou seja, guerra sanguinária, é pra matar. Dar um “beijinho no ombro” é um sinal de desprezo para o recalque. Funciona também como exorcismo, tipo bater três vezes na madeira pra afastar o mal. Resumindo, o recalque na canção é um chilique de piriguetes. Passa longe do túmulo de Freud. Mas se há um conceito e um grande pensador no caso, é ele.

Pensadores: há, entre os pensadores, enorme dificuldade de reconhecimento. Indivíduos que hoje detém o título foram, em outras épocas, execrados publicamente e alguns até levados a juízo (pensar é uma das atividades mais perigosas que existem). Dificilmente vamos ver um pensador (um digno desse reconhecimento), com vida boa de princesa, cercado de acólitos, mimos e fru-frus. Certamente devemos tomar cuidado com pensadores contratados pelo governo para impor ideias e passar conceitos. São pensadores sim, sem dúvida, mas sua ética está sob suspeita.

Educação: faz muito tempo, no Brasil, que o “cabeção” foi substituído pelo “popozão”. "Aqui a bunda vale mais que a mente", critica Mc Garden. Trata-se de um processo de descerebralização da educação, que faz com que um par de nádegas valha muito mais que um par de cérebros (os hemisférios direito e esquerdo). Um par de cérebros produz ideias. Um par de nádegas, para além da estética, produz merda. Logo, os exemplos deploráveis questionados na educação atual vão na mesma latrina, digo, linha. Lamentável. A respeito da polêmica, claro que não passa de mais um aproveitamento midiático para atingir certos bestiários, digo, ideários. A mesma mídia que posa de defensora da educação vive de explorar os popozões que pululam no varejo.
Espanta-me o fato de o tal professor querer insistir na ideia de que a moça seja mesmo uma pensadora. Espanta-me falar dos pensadores franceses quando quem está em questão é um alemão maldito. Valei-me Sigismundo. Salve-me Zaratustra.
 
PS.: Pare o mundo, que eu quero descer.

Angelo Pereira Campos é Jardineiro. Em horas inexpressivas dedica-se a coisas de pouca monta, tais como filosofia e psicanálise.

9 de fevereiro de 2013

O personalismo humanista de Max Scheler

por Angelo P. Campos*
 
Ícarus- Matisse
Max Ferdinand Scheler (1875-1928) foi talvez o mais profícuo de todos os fenomenólogos, levando sua investigação para o campo da ética. Assim como Heidegger, recebeu influência direta do pensamento de Edmund Husserl.

Contrapondo-se ao pensamento de Kant, para quem o imperativo da ação seria unicamente orientado pelo dever (ética deontológica), propõe como conceito fundamental o valor (ética axiológica). Na base da crítica da razão prática kantiana, mesmo reconhecendo seus méritos, está a recusa do formalismo nas proposições a priori (necessárias e universais), ante as quais introduz sua ética material dos valores. Neste caso, o materialismo dos valores da ética de Scheler opõe-se ao formalismo do dever da ética de Kant.

Valores, na ética de Scheler, não são elementos componentes de um plano de vivência intelectual, mas especialmente atividades de uma intuição emocional, não captáveis diretamente pelo intelecto senão pelo sentimento, verdadeira fonte da legitimidade da hierarquia dos valores, conforme podemos resumir do seguinte modo:

Primeiramente os valores sensoriais, tais como alegria/tristeza, prazer/dor; em seguida os valores civilizacionais sintetizados na utilidade e/ou no dano; depois os valores vitais, resumidos em nobreza/vulgaridade; os valores culturais (espirituais) como vivenciados na estética, na ética, na justiça e na especulação e, por fim, os valores religiosos. Tal conjunto de valores encontra-se na experiência da pessoa, para além da vontade ou do dever, sendo reconhecidos pela emoção.

A partir desses apontamentos é possível criticar as posições de ideólogos e antropólogos em relação ao problema do homem e sua posição no cosmos (a posição do homem na hierarquia dos valores).
Existem várias conceituações possíveis para o problema antropológico, a definição de “homem”. Historicamente essas conceituações são conflitantes, quando não totalmente incompatíveis. As concepções filosóficas, na intenção de superar unilateralidades e aspectos passionais em alguns casos, necessitam apoiar-se em bases completas o suficiente para considerar a inteireza, o holos, do ser, para depois traçar um paralelo entre eventos que possam conter as qualidades humanas. A tentação a se evitar seria a de eleger um evento como absoluto sem perceber o estrato da insuficiência, como por exemplo, idealizar o homem como ser criado, dependente de uma divindade, exaltando sua característica espiritual; ou idealizá-lo como resultado de processos mecânicos físico-químicos em evolução, exaltando a característica biológica; ou ainda idealizar as habilidades de transformação do meio ambiente, exaltando o caráter das obras. Em todos esses exemplos há algo valioso, não observável no enfoque exclusivista, que naufraga na linha da exclusão.

De modo geral, toda demarcação do homem subordina-o a um sistema de compreensão previamente ordenado.
Scheler, por outro lado, está em busca do “conceito essencial”, a incógnita peculiar ao homem. Existe uma posição de ser peculiar ao homem? Se sim, esta posição constitui o fundamento de um conceito essencial?

Em afirmativo, neste caso, toda possível conceituação do homem deve considerar os mais elevados estratos nele presentes, mesmo aqueles que o orientam na direção dos demais seres.  Onticamente quer se tratar dos estratos materiais (orgânico-inorgânico), dos sociais (relacionamentos interpessoais), dos afetivos (amor-ódio), entre outros, encontrando grande riqueza de valores.

Mais enfaticamente Scheler investiga os estratos de seres vivos em geral e nota como dimensão estruturante a individualidade ou, em outros termos, a construção de um mundo psíquico. Segundo Scheler os seres vivos já possuem um para-si. Em sua análise, porém, investiga o desenvolvimento evolutivo do para-si em quatro dimensões relacionadas em subordinação umas às outras.
A primeira dimensão seria a do impulso afetivo, i. e., a capacidade de ser afetado, quer dizer, sensivelmente afetado, que manifesta pela primeira vez a individuação, início da constituição psíquica do para-si. Esta dimensão, embora presente no homem caracteriza primordialmente as formas de vida vegetais, as quais expressam uma primeira ideia de um estado interno a partir da resistência aos entraves do ambiente. Em busca da luz e em busca da água, caule e raiz realizam contornos criativos, tal qual operação sensitiva de resistência. Esta ação do ser afirma a individualidade, a distinção perante o meio, expressão de uma vivência. Contudo, nesta dimensão do para-si, o impulso é meramente estático (ekstatico), pois inexiste consciência do mundo circundante (Unwelt). Tão somente existe uma primeira etapa de individuação e um sentido geral de estar vivo. Contudo, esta é a dimensão basilar, conservada em todos os demais seres vivos, inclusive no homem, como expressão original de resistência (Conforme Scheler, no homem a vivência da resistência seria a primeira matéria da concepção da realidade).


A World of Their Own / Lawrence Alma-Tadema

A segunda dimensão seria a do instinto animal, i. e., a expressão de um estado interno, como resposta do indivíduo perante o meio, contendo um sentido para o para-si. Scheler não intui a partir de uma relação mecânica com o mundo circundante, mas de uma resposta anímica ao meio que, por outro lado, não se constrói por escolha, não é livre. Nesta dimensão as sensações subordinam-se aos instintos, ou seja, somente são vivenciadas aquelas que condizem instintivamente a cada espécie. Pode até caracterizar um modo de saber e um modo de agir, contudo, também aqui, não existe ainda propriamente a consciência ou a representação de objetos. A valoração, neste caso, existe por atração ou por repulsão aos constituintes do meio, sempre a partir da resistência. Embora não exista representação, o instinto animal segue algo específico, uma distinção, portanto um para além da dimensão do impulso afetivo e, como tal, um contínuo processo individual de resistência e um separar-se do meio.
A terceira dimensão seria a da memória associativa, i. e., a capacidade do individuo de relacionar-se com o mundo circundante a partir de elementos significativos. O para-si, neste caso, consegue associar a ação individual com os fatos. A ação tomada como um aprendizado sobre o Unwelt (não um mero condicionamento do para-si), possuidora de um sentido transcendente ao instinto. O instinto fornece as bases da ação, mas o sentido aprendido na vivência passa a fazer parte do instinto como memória e não como ato.

Finalmente, a quarta dimensão abordada, seria a da inteligência prática, i. e., a capacidade do para-si de relacionar internamente as ações pessoais com alguns constituintes do meio, respondendo a uma necessidade prática, sem contudo demonstrar a posterior capacidade de representar tais constituintes e suas relações.
Após essas considerações, a questão da conceituação do homem ganha novos sentidos com a obra de Scheler relacionando então as categorias de espírito, pessoa e ideação. Pois o homem, afinal, realiza a dimensão da existência em que se revela a máxima distinção em relação ao meio. O princípio que permite a distinção total entre o homem e o meio está além daquilo que se denomina como vida. Scheler fala do espírito. Mas espírito enquanto possibilidade.

Qual seria então a posição do homem no cosmos?
O homem não tem posição alguma no cosmos. Como unwelt, o cosmos é que tem uma posição no homem. A tanha das doutrinas sobre o homem consistiu em querer introduzir nele uma essência. Mas tal coisa não existe, caminhando o homem pelo terreno da indefinibilidade.

Cada pessoa humana é simplesmente indefinível. O homem é uma travessia.
Minha travessia é, pois, um Sertão! E assim, de terreno a sereno, tenho feito minha Jardinagem.

*O autor é um mero Jardineiro. Somente em horas vagas dedica-se a coisas de valor reduzido, tais como a filosofia e a psicanálise.
Este trabalho está licenciado sob a Licença Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Brasil da Creative Commons.

25 de janeiro de 2013

A tríade existencialista


Angelo P. Campos *

Carta 21 do Tarot de Marselha (Jean Noblet, 1650)
A escolha, a afirmação do valor, a responsabilidade, o engajamento...  tudo isso um homem pode suportar? Um homem pode assumir? Não é possível procurar a maneira que convém viver acreditando unicamente na ação individual. Supor que o engajamento individual não compromete o outro falsifica as relações, sendo conveniência de má fé. O contrário, porém, a autenticidade consigo mesmo, implica assumir a tríade do existencialismo: a angústia, o desamparo e o desespero.
A angústia representou a fonte de inúmeros ataques ao pensamento de Sartre. Explicitada em seus romances e no ensaio de ontologia fenomenológica O Ser e o Nada, é apenas indicada em O Existencialismo é um Humanismo, amenizada, inclusive: “Trata-se de uma angústia simples, que todos aqueles que já tiveram responsabilidades conhecem” (SARTRE, 2010,30). A angústia apresenta-se irremediavelmente conjugada à responsabilidade.

O desamparo é a consequência do fato assumido de que Deus não existe. Porém aqui, Sartre diferencia-se dos demais ateus e mesmo dos humanistas. Para esses, não havendo Deus – hipótese inútil – ainda há um a priori de alguns valores universais, ainda há uma “natureza humana” focada no bem. Ao contrário, para o existencialista, se Deus não existe, o incômodo é mais extenso, pois não existem também valores universais a priori, nem natureza humana alguma, nem nenhum bem inteligível. Eis o sentido do desamparo, irremediavelmente conjugado à liberdade absoluta. Eis o contexto da frase mais famosa do existencialismo: “O homem está condenado a ser livre” (SARTRE, 2010, 33).

Quanto ao desespero, Sartre define que a vontade própria ou as probabilidades da ação possível são as únicas ferramentas com que se pode contar. Estar entregue ao domínio das probabilidades, algo da ordem da vida que não se pode mudar, algo a que não se tem acesso. Algo fora do domínio humano. Mas contar com a probabilidade só é possível no momento em que a ação humana se conforma às possibilidades. Fora isso, resta apenas um sofrimento sem sentido.
Nisso também consiste a resposta de Sartre quanto ao problema do quietismo. Ao contrário do que proclamado pelos críticos, o existencialismo é uma filosofia da ação, radicalmente oposta ao quietismo. A realidade almejada pelo homem está no ato de projetar-se. Ele jamais se realiza no quietismo.

Para o existencialismo “só existe realidade na ação”. Pensar, sonhar, criar expectativas ou mesmo ter esperanças e cultivar a vida nesse entorno redunda na inutilidade e no malogro. Um homem é, e será sempre, aquilo que fizer de si mesmo, i. e., aquilo que realizar. Nada mais. A dureza desse pensamento é uma “dureza otimista”. Pretende mostrar que, para além das influências do meio, da sociedade, da constituição fisiológica e de qualquer tipo de determinismo a sossegar o espírito, inegavelmente há uma possibilidade de escolha. Não uma escolha qualquer, mas aquela pela qual nos tornamos responsáveis. É esta, e somente esta escolha, a portadora da autenticidade da ação, mesmo quando nada há de heróico nela.
O que, segundo Sartre, a maioria de seus críticos e, de um modo geral a maioria das pessoas se recusa aceitar é a dureza otimista, a exigência de engajamento. Se levarmos em consideração o momento histórico da exposição dessas teses e a condição geral da Europa pós-guerra, o discurso existencialista parece demasiado radical e talvez não seja estranha a dimensão da recusa ou a dificuldade em compreendê-lo. No entanto, no transcurso de sete décadas, o que resta ao homem do trato com a liberdade? E em que medida se pode afirmar o assunto da responsabilidade?

O cenário do mundo contemporâneo não transita por esse ideário. A civilização que se quer “mundial” (esta que se autodenomina “aldeia global”) dialoga com a inautenticidade. O contrário dela é o existencialismo, filosofia para poucos. Não é possível aceder a ela sem atravessar uma crise. Nisso, há que se cultivar a “dureza otimista”. Porque não há definidor melhor para a atualidade do que este: momento de crise. De resto, pergunto-me se não foi mesmo sempre assim. Será?

* O autor contenta-se em ser Jardineiro. Nas horas vagas dedica-se a funções de menor mérito tais como a filosofia e a psicanálise.
 

Este trabalho está licenciado sob a Licença Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Brasil da Creative Commons.

18 de novembro de 2012


Gilles Deleuze (1925-1995)
É possível falar de privilégios da filosofia sobre as ciências ou artes? 
Qual o papel da filosofia?
Por Angelo Pereira Campos*
 
Uma das proposições de Gilles Deleuze está relacionada à sua interpretação de Spinoza, na qual a ideia de privilégios do pensamento deve ser combatida para se preservar a autenticidade ontológica da filosofia. Nesse sentido não se pode falar de privilégios da filosofia sobre qualquer arte ou ciência se com isso se pretende impor um modo representativo de argumentação ou interpretação do mundo.  Seria um modo de manter o pensamento livre sob a ameaça de idealismos. Quando se utiliza da filosofia para a leitura do conhecimento científico e do impacto das artes, não se está falando de um local privilegiado, de um ponto de vista externo, mas, ao contrário, a proposta é a de aliar-se internamente a esses discursos de modo livre e criativo, não significando que a filosofia seja mais distante ou mais difícil que qualquer outro discurso.
 
O papel da filosofia para Deleuze é especificamente o de inventar conceitos, como forma de atividade crítica e produtiva de sentido. Nesse aspecto, cabe ao filósofo a produção de conceitos novos ou novas formulações para a interpretação de conceitos usuais. A produção de sentido estaria diretamente atrelada à capacidade de pensar em liberdade. Portanto, os conceitos estabelecidos como forma de interpretar o mundo não podem ser transformados em “verdades” absolutas, fechadas em si mesmas.  O objetivo de seu pensamento é trabalhar as possibilidades. Para tanto, utilizou-se das artes, especialmente do cinema, para interpor uma crítica da cultura e dos valores, valendo-se, em grande medida, do pensamento de Nietzsche e de Freud. Sua visão crítica da cultura, por exemplo, é atravessada pelo sentimento de repugnância, de abominação, não sendo algo fácil de suportar. A filosofia por ele proposta envolve a ideia de desterritorialização/territorialização, isto é, por um lado, a capacidade de não se prender a um território (no sentido de ideias prontas, como, por exemplo, o que acontece com a política, a religião e as ciências) e, por outro, a paradoxal capacidade de fazer filosofia saindo do território da própria ideia de filosofia, o que, na prática, nunca deixa de ser a mesma filosofia. Seu pensamento é paradoxal e ao mesmo tempo romântico.    
* O autor é Jardineiro e, nas horas vagas, filósofo e psicanalista.


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17 de agosto de 2012

Educação?


Por Alexandra Sturzeneker[1]

Vamos falar de educação. Palavra que está sendo distorcida e incompreendida nos novos tempos. Há tempos atrás educada era a criança que respeitava pais, avós, professores... Estou falando do respeito que vem da admiração e não do temor. Essa geração passou, pois as crianças cresceram, a tecnologia avançou assustadoramente e aprimora-se dia após dia. Temos que ser “espertos” para acompanhá-la. As mulheres tomaram o mercado de trabalho e as crianças, filhos dessas crianças de tempos atrás, estão mais solitárias e ao mesmo tempo mais atarefadas, pois são tantos idiomas a aprender que até se esquecem da língua mãe (como é que se escreve mesmo “excesso”?). Isso é uma dúvida de vestibulando e não de crianças do nível fundamental, porque nessa fase estão imersas nos sites de relacionamentos e muitas vezes parecem digitar códigos ao invés de palavras. Ah! Esqueci-me, é a pressa, precisam encurtar ao máximo as palavras, repetir letras para enfatizar suas emoções. Eu fui uma criança desses tempos passados, que admira uma boa obra literária e, diga-se de passagem, isso está perto do fim, pois o que lotam as livrarias são Best-sellers, auto-ajuda (sim, pois dão-nos a entender que somos cegos, dependentes de alguém com uma lamparina a supostamente iluminar o caminho).
Vamos voltar à educação. Professores mal preparados, alunos desinteressados, pais ausentes, Estado muito, muito mais perverso, essa foi a melhor palavra que encontrei para descrever a situação do sistema educacional. E nas faculdades? Pergunto se alguém quer ser professor, e o ser humano diz “eu vou ser de literatura e português”. Logo vem a crítica: “Você tá maluco? Ganhar mal e ainda levar desaforo para casa todo dia? Por que não faz engenharia, se ganha dez vezes mais e você vira chefe rapidinho, você faz seus subordinados engolirem sapos”.

Rubem Alves diz que uma das missões da educação é “formar um povo, ajudar as pessoas a sonhar sonhos comuns para que, juntas, possam construir.” E ainda, “as escolas devem ser o espaço onde alunos e professores sonham e compartilham seus sonhos, porque sem sonhos comuns não há povo, e não havendo um povo não se pode construir um país”.[2]
Bem, não sei por que, mas muitos ainda acreditam que o Brasil é o País do Futuro...



[1] Membro do Gefil Assessoria Cultural e aprendiz da Formação Holística de Base da Universidade da Paz.
[2] ALVES, Rubem. Conversas sobre Educação. Campinas: Verus, 2003, p.8.

6 de março de 2012

Vivência n.2

Por Angelo P. Campos[1]





Caríssimos,

Saudações.

Em plena tarde de segunda [feira], recebo chamada inesperada. O visor do celular acusava DDD de outros rincões desse imenso Brasil. Cidadão honrado (isso hoje quer dizer “nome limpo”, a despeito de outrora “homem de valor”, “moral elevado”), se algo devesse optaria, em sã consciência, não atender. Contudo, surpreendo-me com a voz mecânica da moça do outro lado da linha, chamando imediatamente pelo meu nome, solicitando confirmação de meus “dados cadastrais”, segundo ela, “pra que não fiquem dúvidas” de que sou eu, eu mesmo. Além do mais informava solenemente que, pra minha “inteira segurança”, o teor da conversa seria gravado. Tudo bem! Confirmados os tais dados cadastrais (Nome do Pai, Nome da Mãe, Nome do Filho, digo, CPF) e suplantada qualquer hipótese de que, talvez, eu não seja, afinal além de mim, senão eu mesmo, informa a citadina tratar-se de minha assessora bancária, afilhado que sou do Banco iRreal Internacional do Brazil, antigo Praça da Forquilha [assim dito, pra não ofender a integridade real da nobreza, mas, se para bom entendedor meia pala bas, está dada a ordem da confeitaria].
Pergunta se está tudo bem comigo, respondo que sim. “Graças a Deu$!” alude ela, embora não alcance o significado da citação, nunca soube o que Ele tem a ver com isso! Pergunta se há algum projeto a se realizar em 2012, respondo que não informarei nada a esse particular. “Pois bem”, continuou, “o motivo de meu contato é que o Sr., na condição de cliente especial, foi agraciado com linha de crédito no valor de R$ 3.960,00 (ué, sou ‘especial’?), para realizar seus projetos em 2012, isto não é formidável?” (...) sem que eu pudesse esboçar qualquer reação, sequer um soluço, continuou a atropelar-me com sua voz de locomotiva: “Saiba que para liberação do crédito em sua conta, totalmente isento de quaisquer taxas hoje praticadas pelo mercado, só precisamos da sua aprovação! Por este crédito o Sr. pagará apenas o valor de R$ 351,55 em 36 parcelas!” Ah, bom, agora entendi o quanto sou um cliente especial. E quantos não há como eu, especialíssimos!
Um simples cálculo me diz que clientes especiais pagam 3x mais e mais um pouco o que empurram, digo, recebem. Temos, assim, estabelecido em nosso país, o roubo institucionalizado, aprovado e compartilhado pelas saltimbancas autoridades [in]competentes.
Do estelionato, sei que é crime capitulado no Código Penal Brasileiro (Título II, Cap. VI, artigo 171), assim rezado: “Obter para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento” [grifo meu], inexistindo a forma culposa. Portanto é crime doloso, cuja pena varia de 1 (Hum) a 5 (cinco) anos além de multa.
Minha grande desconfiança é a de que os criadores da lei são propriedade privada dos saltimbancos trapalhões, digo, espertalhões. Afinal nunca vimos, nem no cinema, gente honesta na cadeia. Há sempre algo que os impede de conhecer o artigo 171 em essência, isto é, para além da mera cognição. Sugiro ao menos a proximidade com o 174, Induzimento à Especulação, que assim reza: “abusar, em proveito próprio ou alheio, da inexperiência ou da simplicidade ou inferioridade mental de outrem, induzindo-o à prática de jogo ou aposta, ou à especulação com títulos ou mercadorias, sabendo ou devendo saber que a operação é ruinosa” [outro grifo meu]. Neste caso a pena varia de 1 (Hum) a 3 (três) anos além de multa.
Pra toda sorte de maquinações na sordidez do sistema há a previsão de um crime. Contudo, no lusco-fusco com que se nos apresentam as falácias monetárias, nossos legisladores, nossos juízes, nossos promotores não são mais do que bufões engalanados em suas vestes negras com rendinhas brancas no pescoço (sim, ficou lindo no quadro da formatura!).
Caros amigos, nenhum juiz pode ser mais bem qualificado senão a consciência livre. Pra essa classe de espetáculos ouçamos a sabedoria de uma geração passada, aquela que não conheceu internet, celular ou Big Brother: “quando a esmola é demais, até o santo desconfia”.
Se de fato precisamos de um sistema, saibamos ao menos exercer o teor da liberdade que impregna nossas consciências: não precisamos de um sistema que nos escraviza. De outra sorte, são consciências escravas que mantêm a autoridade do capataz.
Agradeci à moça de voz cibernética (ando desconfiado que sejam belas androides que nos falam), mas, fazendo uso da condição de ‘cliente especial’ (devo ter acesso à gravação de minha conversa!) solicitei a inversão dos termos da proposição: propus ao Banco iRreal Internacional do Brazil creditar em minha conta a quantia de R$ 12.655,80 e em troca dispor-me-ia a quitar o débito (ou seria o crédito?) em longínquas 36 parcelas de R$110,00
Conforme reza a ladainha, minha assessora diz que “vai estar passando pra o gerente” (sic) sendo, até então, ausente qualquer retorno. Às vezes pergunto à minha rosa se esse gerente existe mesmo!
Bem amigos, como disse no início, não envolvamos o sobrenatural. Deixemos essas entidades metafísicas todo poderosas repousarem em seu trono celeste, como tal, afastado das monetariadas humanas.






[1] O autor é filósofo, psicanalista e jardineiro nas horas vagas.
Licença Creative Commons
Este obra foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

14 de setembro de 2011

Impressões sobre o sete de setembro

Angelo P. Campos[1]

Relato, a título de mera curiosidade e exercício crítico, as impressões sobressaltadas em minha primeiríssima observação de um desfile militar do orgulho patriótico representado pelo sete de setembro. Já me aproximo da casa dos quarenta e, acreditem, nunca havia visto tal bizarrice tão de perto.
Tudo começa com o desfile dos veteranos de guerra. É impressionante, mas ainda existem! Estavam muito animados, mais até que os não veteranos, afinal nem mesmo a guerra pôde acabar com eles. Alguns ainda marchavam como há sessenta anos, apesar de suas posturas já não serem lá tão marciais.


Assisti sorridente ao desfile dos alunos do Colégio Militar, aliás, considerado hoje a melhor referência em educação no país. Impressionante como marcham os alunos mais gordinhos, que esforço realizam pela pátria-mãe, vertendo em público seu abnegado suor. As meninas, como deve ser em meio militar, vieram depois dos meninos, muito zelosas, inclusive.


Ah, impressionante o desfile dos carros alegóricos, ops, digo, dos veículos de combate militar. Grandes e pequenos brucutus, fabricação nacional, a maioria da década de setenta, mas com pintura retocada e brilhosa, pneus novos. Para o observador leigo aquilo é o auge da nossa soberania. Para qualquer observador um pouco mais acurado – e esses são cada vez mais escassos – trata-se de um pavoroso espetáculo de nossas fraquezas. Como tiveram essa ousadia, levar carcaças de museu para um desfile ao som dos tambores e das sirenes? Que cena gritante da velha politicada Panis et circencis, iniciada há seus dois mil anos pelo mui esperto e competente Augustus, autointitulado César, Imperador da pomposa e militaresca Roma, já despossuída do espírito da República. A ideia vingou tão bem que calha aos atuais governantes em todo o mundo e há de calhar enquanto o pão for adocicado e o circo sempre mais colorido e alegre.


Buzinadas e patetadas a parte, a sequência mostrou um longo grupo de Pfems. A primeira fileira, muito bem alinhada, seguia o padrão e o figurino do comando. Porém, a partir da segunda fileira, o espetáculo foi medíocre. Mulheres demonstrando cansaço e penúria em seus gestos e semblantes murchos. Uma delas vai permanecer na minha memória de desfiles, pois carregava uma bacia imaginária em seus braços enquanto marchava. Nunca havia visto tal gesto marcial. Mas entendi sua carga emotiva, como sinal de um inconsciente coletivo em que cabe somente às mulheres, mesmo as guerreiras, o carregamento das bacias. Acredito que a roupa suja também se lava nos desfiles.


Mas eis que de repente surge uma fileira de espadachins, muito bem vestidos e organizados, animados por uma bandinha de tambores e trompetes. Pareceu-me terem saído de algum túnel do tempo, através de alguma sorte de tecnologia hiperquântica, dessas que animam os cientistas menos malucos. Meu filho caçula, aninhado em meus ombros, até esticou o pescoçinho para vê-los melhor. Nesta mesma sequência do túnel do tempo veio com marcha pesada e poderosa um grande bando vestido de negro, totalmente encapuzados, assustadores. Eram os ninjas. Não pensei que um dia os veria assim tão próximos. Silenciosos, muito bem armados, a marcha impecável, exatamente como nos animes. Esses foram aplaudidos pelo povo. Não sei por quê, mas acho que mereceram aplausos, apesar de não terem feito nada típico de ninjas, como por exemplo desaparecer no meio da fumaça. Tudo bem! Não se pode exigir tanto num desfile. Agora confesso: pavorosos mesmos, vindos do futuro, foram os androides! Verdadeiros homens-máquinas-de-destruição, armados até os dentes, capacetes de Jedi, garras de Wolwerine, suas armas não são convencionais, pois detonam grande poder só de olhar para elas, tão medonhas. Senti um frio na barriga diante desses androides. Fiquei aliviado quando o túnel hiperquântico do tempo deu sua última rabanada.


A sequência seguinte mostrou a realidade temporal atual, com a qual convivo de modo provisório, afinal não pertenço nem a este mundo nem a esta época.


Tratava-se de um rebocador de helicópteros. Havia uma carcaça de helicóptero desfilando com os aviadores em terra. Meu filho gostaria de tê-lo visto voando. Acreditei que uma caixa de pilhas Rayovac pudesse resolver o problema afinal era só um brinquedo.


Não posso deixar de replicar o tremendo mau gosto da Polícia Rodoviária ao expor o caminhão reboque. Da janela, uma moça bonita e sorridente acenava para a multidão entusiasmada. Alguma vez na vida um carro desses já esteve a serviço do povo? O que fazem com isso senão recolher os veículos daqueles que não pagaram seus impostos em tempo hábil? Trata-se de um crime do Estado contra o cidadão, que se vê privado de seu meio de transporte ou de trabalho em razão de um débito para o qual existem inúmeras maneiras menos agressivas de coerção. Outra bizarrice para a qual aceno tangencia ao desfile da Polícia Militar, pois, no intuito de ganhar a consciência das crianças, levaram um sujeito fantasiado de ‘boa praça’, com uma cabeça enorme, em muito semelhante ao querido personagem dos quadrinhos, o Cascão. Convenhamos, isso não me cheira nada bem.


Logo depois vieram os cavaleiros. Esses sim fizeram bonito. Meu filho, já com sono, perguntou se eram os mesmos cavalinhos das Crônicas de Nárnia e se também falavam. Disse que deveriam ser os mesmos e se prestássemos mais atenção talvez víssemos o próprio Aslam, já que em nosso mundo ele tem outro nome e outra aparência. O reino animal marcou presença positiva na Av. Afonso Pena. Atrás dos cavalos estavam os cães, dando show de disciplina e cidadania. Ao contrário do que pensam alguns desavisados, esses seres recebem cuidados especiais, contando com alimentação balanceada, folga semanal e férias. Os equinos gozam de atendimento psicológico especializado, exercido por profissionais formados na mais alta psicoequinocultura. Um dia, quiçá, venha o povo a merecer o mesmo.


Finalmente terminava a parada militar do orgulho gay, ops, digo, a parada militar de sete de setembro. Interessante mesmo a participação da sociedade civil, através de suas organizações e fundações educacionais e culturais. Compuseram minha segunda parte de impressões.


Depois de espadachins, ninjas e androides, animou o desfile o primeiro grupo da sociedade civil. Dando provas de civilidade e organização o pessoal do Universo em Desencanto, todos vestidos de branco, com seus estandartes e bandeiras, uma banda afinada, composta por adolescentes. Senti falta do Racional Superior, e também da sua Nave Mãe, afinal essas coisas fazem parte do desfile. Embora seja sabido o pavor que estes extraterrestres nos causam. Alerto-lhes para que não se assustem, é tudo firula. Quando extraterrestres aportam por aqui vão direto para Washington, D.C., entram em conflito com os americanos e sempre são derrotados. É até assim que eles comemoram seu Independence Day.


Pra minha surpresa lá estavam também uns vampiros, com suas vestes negras de condes transilvânicos, suas capas esvoaçantes vermelho-sangue, todos muito mal encarados, protegendo-se da fulgurância do sol com seus óculos escuros. Juro que eram eles mesmos, saídos de seus sarcófagos esotéricos. Seus estandartes negros traziam símbolos ocultos desde o antigo Egito e até da Atlântida. Em um deles pude identificar o seguinte tetragrama: G.A.D.U., além de uma cabeça de bode. Embora ainda causem impacto com sua presença, tais criaturas são hoje bem aceitas, exceto por espíritos menos esclarecidos que tanto temem seu suposto poder.


Devo tecer as considerações finais pra não tomar em vão o tempo do leitor. Vários segmentos da sociedade civil demonstraram trabalhar pelo bem. Fiquei feliz com os valores exercidos pela BSGI, o Lions Clube e o Instituto de Educação. Essas pessoas merecem crédito por me fazerem acreditar que ações em prol da educação, da ecologia e do bem estão sendo exercidas com afinco primoroso para que tenhamos em breve uma sociedade em cujos próximos setes de setembro não precisemos mais expor a bizarrice e a patetada dos milicos. Façamos um apelo ao bom senso para que os próximos momentos cívicos sejam tão somente exercidos pelo povo de bem, vamos apagar essa patusquela armamentista da independência, vamos proclamar a independência da inteligência, do bom senso e da ética.

Zelosamente, aos beneplácitos da paz, em 07 de setembro de 2011.


 
Obs.: O texto é um exercício livre de pensamento. Não existe intenção de ofender ninguém. Trata-se apenas de impressões pessoais.
Email do autor: angelocampos@gefil.com.br




[1] Angelo P. Campos é Jardineiro, também filósofo e psicanalista nas horas vagas.
 
Este trabalho está licenciado sob a Licença Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Brasil da Creative Commons.

15 de dezembro de 2010


O SENTIDO DO AMOR
Já vimos como o caráter de sentido da existência humana se funda no “caráter de algo único” e na irrepetibilidade da pessoa. Vimos também que os valores criadores se realizam sempre na forma de realizações que sempre têm relação com a comunidade. Ficou patente, assim, que só a comunidade, enquanto ponto de referencia em ordem ao qual se orienta a criação humana, confere o sentido existencial àquele “caráter de algo único” e irrepetivel próprio da pessoa. Mas não basta falar, a este propósito, da criação. A comunidade também pode ser aquilo para que se orienta a vida humana. Especialmente a comunidade a dois: a comunidade de um eu com um tu. Se prescindimos do amor num sentido mais ou menos metafórico, para nos atermos ao amor no sentido Eros, temos que o amor representa o campo onde de um modo especial são realizáveis os valores da vivência. O amor é, afinal, a vivência em que, pouco a pouco, se vive a vida de outro ser humano, em todo seu “caráter de algo único” e irrepetível!
Além do caminho da realização de valores criadores em que, portanto, se dá algo de ativo, para fazer valer o “caráter de algo único” e a irrepetibilidade da pessoa, há um segundo caminho, como que passivo, onde tudo quanto o homem tem que conquistar, em geral, mediante um agir, lhe cai do céu, por assim dizer. Esse caminho é o caminho do amor, ou melhor: o caminho do ser amado. Sem necessidade de se propor fazer propriamente seja o que for, sem um “mérito” propriamente dito – como que por pura graça -, o que aqui sucede ao homem é que lhe cabe em sorte aquela plenitude que reide na realização do seu “caráter de algo único” e irrepetível. No amor, o amado é essencialmente  captado como um ser irrepetível no seu ser-ai (Da-sein), e “único” no seu ser-assim (So-sein)*, que é o que ele é; concebido como Tu e, enquanto tal, acolhido num outro Eu. Como figura humana, vem a ser, para quem o ama, insubstituível, ninguém podendo fazer as vezes dele, sem que por isso ou para isso tenha que fazer seja o que for. A verdade é esta: o homem que é amado “não tem culpa” de que, em sendo amado, já se realize o que há de irrepetível e único na sua pessoa, isto é, o valor da sua personalidade. Não é “mérito” o amor, ates é graça.
Mas não é só graça, é também feitiço. Para quem ama, o amor enfeitiça o mundo, mergulha-o numa nova valiosidade. O amor dá àquele que ama uma maior altura no que diz respeito à ressonância humana em face da plenitude dos valores. Abre-lhe o espírito ao mundo, na sua plenitude de valores, a toda a “gama dos valores”. Assim, o amante, ao entregar-se ao Tu, experimenta um enriquecimento interior que transcende esse Tu: o cosmos inteiro torna-se para ele mais vasto e mais profundo na sua valiosidade; resplandece nos raios de luz daqueles valores que só o enamorado sabe ver, pois, afinal, não faz cegos o amor, mas sim videntes – dando aguda visão para os valores. Por fim, ao lado da graça de ser amado e do feitiço do amar, um terceiro momento surge ainda no amor: o seu milagre; porque, precisamente através do amor, e dando um rodeio pelo biológico, consuma-se o que é de algum modo inconcebível: uma pessoa nova entra na vida, cheia, ela também, daquele mistério do “caráter de algo único” e irrepetível da existência – e um filho é isto”.
*A mesma idéia é utilizada pelo autor com esta expressão modificada: “ser-assim-e-não-de-outro-modo” (So-und-nicht-anders-sein).
FRANKL, Viktor E., Psicoterapia e Sentido da Vida: fundamentos da Logoterapia e analise existencial, 5ª Ed., São Paulo: Quadrante, 2010, PP. 172,173